Fé e desrespeito em Aparecida
Artigo de opinião
Antônio Carlos Leite
Como faço todos os finais de ano, estive em Aparecida para visitar minha família, cidade onde nasci. Sim, nasci em Aparecida — equivocadamente conhecida em grande parte do país como “Aparecida do Norte”. Além do reencontro com irmãos e amigos, vivi uma experiência que expõe um grave problema: o desrespeito, a desorganização e a falta de civilidade protagonizados pela administração da Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida.
A Basílica cobra uma taxa para o acesso de veículos ao seu pátio. Automóveis pagam R$ 35,00. O valor cobrado de ônibus e caminhões não é claramente divulgado. A cobrança em si já gera questionamentos, afinal trata-se de uma igreja. Ainda assim, deixemos esse ponto de lado e consideremos a taxa como estacionamento, algo comum em shoppings e grandes centros.
O problema central está na forma como essa cobrança é feita.
Diferentemente de praticamente todos os estacionamentos do país, a taxa é cobrada na entrada, e não na saída. A cobrança ocorre em poucas guaritas instaladas em um portão próximo à Via Dutra, principal ligação entre São Paulo e Rio de Janeiro. Muitos motoristas são surpreendidos com a cobrança ao chegar à guarita e precisam, naquele momento, providenciar dinheiro, acesso à internet ou pagamento via Pix.
Some-se a isso centenas de veículos chegando simultaneamente, uma única entrada, número insuficiente de guaritas e o pagamento feito antes do acesso ao pátio. O resultado é previsível: congestionamentos diários de vários quilômetros, tanto dentro de Aparecida quanto na própria Via Dutra.
No dia 26 de dezembro, considerado de “movimento fraco” pelos próprios moradores, a fila de veículos se estendia até o município de Roseira, a cerca de 15 quilômetros da entrada da Basílica. Trata-se de um cenário alarmante. Há desrespeito maior com a fé alheia?
O problema ultrapassa o âmbito religioso e afeta toda a sociedade. Motoristas que não têm qualquer relação com a Basílica, com a Porta Santa ou mesmo com a fé católica acabam presos em um congestionamento criado exclusivamente pela má gestão do acesso ao estacionamento. Moradores ficam impossibilitados de sair de casa. Ruas e avenidas da cidade tornam-se extensões da fila que serpenteia rumo à igreja.
A solução é simples, óbvia e amplamente defendida pela população local:
A cobrança deve ser feita na saída, com múltiplos pontos de pagamento espalhados pelo complexo da Basílica, como ocorre em shoppings e grandes estacionamentos em todo o Brasil. Onze entre dez moradores dizem isso diariamente.
O problema, ao que parece, é justamente a simplicidade da solução.
A administração da Basílica não tem fama, entre os moradores, de ouvir a cidade, os fiéis ou o bom senso coletivo. Ao contrário, impõe um tormento diário a milhares de pessoas, submetidas a longas horas de espera sob o calor intenso do Vale do Paraíba, em carros parados, sem estrutura e sem respeito.
Talvez, para alguns, isso seja interpretado como uma penitência antecipada para quem busca purificação espiritual.
Seria desejável que os responsáveis pela administração da Basílica passassem, eles próprios, pela Porta Santa. Quem sabe encontrassem ali a humildade necessária para ouvir o clamor dos fiéis e moradores e agir diante de um caos que já ultrapassou todos os limites do aceitável.
Pode fazer bem à alma, à cidade e à fé. Porque, embora talvez não escutem oficialmente, nas ruas de Aparecida os termos usados para definir essa situação estão longe de qualquer ensinamento cristão.

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